A disputa por uma vaga de residência médica ficou mais acirrada no Brasil. O Exame Nacional de Residência (Enare) recebeu 98.036 inscrições para 8.295 vagas. Entre os candidatos às oportunidades de acesso direto, foram 89.935 inscrições para 6.019 vagas.
A concorrência, no entanto, muda bastante de acordo com a especialidade. Em Otorrinolaringologia, a mais procurada no exame, foram 38,94 candidatos por vaga. Medicina Legal e Perícias Médicas, Medicina Esportiva, Dermatologia e Neurocirurgia também registraram relações acima de 30 candidatos por oportunidade.
Os números ajudam a explicar uma dificuldade que vem ganhando espaço na formação médica: o crescimento da graduação não foi acompanhado pelo mesmo avanço na oferta de residência.
Número de estudantes cresce mais que o de residentes
Entre 2018 e 2024, o número de estudantes de Medicina no país aumentou cerca de 71%. No mesmo período, a quantidade de médicos residentes cresceu aproximadamente 26%.
A diferença fica ainda mais evidente quando se observa a quantidade de recém-formados. Em 2023, 32.611 médicos concluíram a graduação. No ano seguinte, 16.189 vagas de primeiro ano de residência de acesso direto estavam ocupadas. A diferença chegou a 16.422.
Em 2018, esse intervalo era de 3.886. Ou seja, em poucos anos, aumentou consideravelmente o número de médicos que chegam ao mercado sem conseguir ingressar imediatamente em uma residência.
Concorrência varia entre as especialidades
A relação de candidatos por vaga também mostra que não existe uma única realidade para todas as áreas. Além de Otorrinolaringologia, Medicina Legal e Perícias Médicas teve 36,67 candidatos por vaga; Medicina Esportiva, 36; Dermatologia, 32,19; e Neurocirurgia, 31,49.
Na outra ponta, Acupuntura registrou 3,33 candidatos por vaga, seguida por Medicina de Emergência, com 3,98; Infectologia, com 4,33; e Homeopatia, com 4,50.
Uma procura menor não significa que essas especialidades sejam menos importantes para o sistema de saúde. Medicina de Emergência, por exemplo, atende a uma demanda significativa nos serviços de saúde, mas aparece entre as áreas com menor concorrência no exame.
Faculdades de Medicina avançaram mais rápido
O cenário atual também é resultado de uma expansão expressiva da graduação. Em 2004, o Brasil tinha 132 cursos de Medicina e 13.820 vagas anuais. Em 2024, eram 448 cursos e 48.491 vagas autorizadas.
Em duas décadas, o número de cursos cresceu 239% e o de vagas, 251%. A população brasileira, no mesmo período, aumentou cerca de 18%.
A expansão se intensificou principalmente entre 2014 e 2024, quando foram criadas 27.921 vagas, contra 7.692 na década anterior. Das novas vagas abertas nesse período, 91,5% estavam em instituições privadas.
Governo amplia bolsas de residência
Para tentar diminuir esse descompasso, o governo federal anunciou, em 2026, 3 mil novas bolsas de residência pelo programa Agora Tem Especialistas. As oportunidades são voltadas a áreas consideradas prioritárias para o SUS, como oncologia, anestesiologia, cirurgia oncológica, neurologia pediátrica, oftalmologia e radioterapia.
Até agosto, 2.872 dessas bolsas já haviam sido financiadas pelo Pró-Residência. A previsão é chegar às 3 mil até o fim do ano. A ampliação, porém, ocorre em um cenário no qual a formação de médicos segue crescendo. A Demografia Médica 2025 projeta mais de 42 mil novos médicos formados por ano em curto prazo.
O desafio depois da faculdade
Conseguir uma vaga não é o único obstáculo. A residência médica exige 60 horas semanais, com bolsa mínima de R$ 4.106,09 brutos. Para quem precisa começar a trabalhar logo após a graduação, a remuneração e a carga horária podem pesar na decisão.
O resultado é um cenário em que o Brasil forma cada vez mais médicos, mas ainda enfrenta dificuldades para ampliar, no mesmo ritmo, o número de especialistas. Em 2024, 40,9% dos médicos brasileiros não tinham título de especialista.
Para quem está na faculdade, entender esse cenário também significa olhar para a escolha da especialidade, a preparação para as provas e as possibilidades de atuação profissional antes mesmo de concluir o curso.
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