Nove em cada dez professores da educação básica e superior, das redes pública e privada, afirmam ter sido vítimas diretas ou ter presenciado episódios de perseguição e censura no exercício da profissão.
O dado alarmante é parte da pesquisa inédita "A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática", realizada pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Ministério da Educação (MEC).
O levantamento ouviu 3.012 profissionais de todas as regiões do país e analisou diferentes tipos de violências que limitam a liberdade de ensinar, desde tentativas de censura até intimidações políticas e questionamentos agressivos. Embora o estudo também permitisse reportar casos de agressão física, o foco principal recai sobre ataques ligados à prática pedagógica.
Segundo o coordenador da pesquisa, professor Fernando Penna, o objetivo foi entender como diferentes atores, internos e externos às escolas, têm interferido no trabalho docente. “É mais uma censura de instituições em relação aos professores. E não são só instituições. Entre os agentes da censura, estão tanto pessoas dentro da escola quanto de fora, figuras públicas”, destacou.
Censura como fenômeno nacional
A pesquisa aponta que a censura está espalhada por todas as etapas da educação e por todos os estados brasileiros. Professores de todas as áreas e funções relataram situações de silenciamento ou controle sobre conteúdos e práticas de ensino. Entre os educadores diretamente censurados:
• 58% sofreram tentativas de intimidação;
• 41% foram alvo de questionamentos agressivos sobre seus métodos;
• 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdo.
Os relatos também incluem demissões (6%), suspensões (2%), mudanças forçadas de unidade (12%), remoção de função (11%), além de agressões verbais (25%) e agressões físicas (10%).
Temas proibidos e apagão docente
O estudo revela ainda que temáticas essenciais para a formação dos estudantes têm sido barradas. Professores relatam proibições para tratar de violência sexual e proteção de crianças, questões de saúde pública, como vacinação, teoria da evolução e temas políticos, de gênero, sexualidade e religião.
As consequências são profundas. Entre 49% e 36% dos professores afirmaram ter sido alvo direto de violência ligada ao conteúdo ensinado, sendo que muitos relatam episódios recorrentes. “As pessoas estão com medo de fazer o seu trabalho como foram formadas para fazer”, explicou Penna.
Esse ambiente hostil contribui para o chamado apagão docente, já que parte dos profissionais abandona a carreira após episódios traumáticos.
Polarização e escalada de ataques
O estudo também investigou quando essas violências ocorreram. Os dados mostram aumento significativo a partir de 2010, com picos em 2016, 2018 e 2022, anos marcados por forte polarização política nacional, incluindo o impeachment e eleições presidenciais.
Quem pratica a violência?
A maior parte das agressões parte da própria comunidade escolar. Entre os agentes citados pelos docentes estão:
• Profissionais da área pedagógica (57%)
• Familiares de estudantes (44%)
• Estudantes (34%)
• Outros professores (27%)
• Equipes administrativas (26%)
• Funcionários e órgãos de gestão educacional (24% e 21%, respectivamente)
O dado desmonta a ideia de que as pressões vêm apenas de movimentos externos. Para muitos educadores, o controle e a vigilância são internos.
Medo, vigilância e insegurança
As repercussões no cotidiano escolar são profundas:
• 53% dos docentes disseram sentir desconforto no ambiente de trabalho;
• 20% mudaram de escola por conta própria
• 45% afirmam se sentir constantemente vigiados, o que os leva a autocensurar conteúdos em sala de aula
Profissionais de escolas privadas relataram que evitam determinados temas por medo de demissão, o que compromete a qualidade da aprendizagem e o acesso a conhecimentos científicos confiáveis.
Regiões com maior incidência
Embora o fenômeno seja nacional, com 93% dos educadores afirmando contato com situações de censura, as regiões Sudeste e Sul apresentaram maior número de casos diretos de violência, segundo o levantamento. A pesquisa mostra que a barreira à liberdade de ensinar tem impacto direto na liberdade de aprender, restringindo o acesso dos estudantes a conhecimentos fundamentais.
Caminhos para a proteção docente
Diante do avanço das agressões, o ONVE e o MEC discutem a criação de uma política nacional de enfrentamento à violência contra educadores, voltada à proteção institucional e à garantia de liberdade pedagógica, sobretudo em anos eleitorais, quando há tendência de agravamento.
A segunda etapa do estudo, que incluirá entrevistas com docentes de diferentes estados, deve aprofundar a análise. O relatório completo também sugerirá mecanismos de proteção e estratégias de prevenção.
Veja também: Violência nas escolas: grupo será criado para elaborar medidas de prevenção
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