A alegria de falar sobre a conquista do diploma da faculdade fica facilmente estampada no rosto da gestora de RH Silvana Cotrim, ao relembrar a superação de momentos difíceis vivenciados para conseguir estudar. Ciente da importância que a educação teve na sua vida, hoje, ela se dedica a combater a evasão escolar para que mais pessoas tenham suas vidas transformadas para melhor.
“O fato de você conhecer te faz estar um passo à frente de quem desconhece, em qualquer área. Isso na sua vida, na escola, no trabalho... o conhecimento por si só é importante. A gente sabe que nesse mundo o nível de escolaridade conta muito”. Esse é um dos conselhos que Silvana dá às pessoas que abandonaram os estudos ou pensam em deixar a escola.

Silvana Cotrim é fundadora do coletivo Negra Visão.
Foto: acervo pessoal
A necessidade de melhorar de vida foi um impulsionador para a gestora voltar à sala de aula depois dos 40 anos. Sem estudar, ela não via oportunidade de crescimento na empresa onde trabalhava. Mas engana-se quem pensa que foi fácil. Para concluir seu objetivo, a motivação interna foi sua maior aliada.
Seus pais não terminaram o ensino médio, mas sempre fizeram questão de que ela estudasse. Oriunda de escola pública, ela relembra que mesmo sem conhecimentos, seus pais davam o material necessário para os estudos dela e dos irmãos.
“Meu pai terminou a escola primária quando começou a trabalhar, mesmo ano que nasci. Ele voltou a estudar com uma certa idade, mas só conseguiu terminar o primário que, na época, era a 4ª série”, justifica Silvana.
Mas somente o apoio dos pais não foi suficiente para mantê-la na escola. Ainda jovem, Silvana parou de estudar, casou, teve filhos e deixou a formação em segundo plano. Anos depois, com mais maturidade e vendo as despesas aumentarem, a necessidade de ampliar a renda da casa fez com que ela decidisse incluir a faculdade no orçamento doméstico.
“Eu vi que precisava melhorar minha vida, avançar dentro da minha carreira profissional e não tinha outro jeito de voltar a fazer isso se não voltasse a estudar”, pontua a gestora.
Silvana Cotrim mora em Atibaia – SP, município com alto índice de evasão escolar. Além do esforço para pagar uma mensalidade que era metade do seu rendimento para manter a família, nos primeiros meses do curso ela perdeu a irmã e o pai, partes de sua base.
Como não bastasse o luto, viu um de seus filhos ser preso. Ainda assim, sua vontade de estudar a fortaleceu para que não desistisse mais uma vez.
Na faculdade, a gestora contou com apoio de colegas e professoras que viam seu empenho para estudar. “O pessoal da minha sala era muito tranquilo, sabiam da situação dos meus filhos, me ajudavam, sabiam do meu empenho e que eu não estava ali só pra pegar diploma. A intenção que você tem conta muito”, declara.
“O meu trabalho, hoje, é trazer as pessoas de volta para a escola”
Antes da pandemia a gestora ia nas escolas para conversar com os alunos e instruí-los sobre a importância de estudar. A estratégia migrou para as redes sociais para continuar incentivando os estudos mesmo sem o contato de antes e, também, para alcançar mais pessoas.
“O meu trabalho, hoje, é trazer as pessoas de volta para a escola, independentemente da idade, e temos todo um trabalho para manter eles lá. Onde moro foi a última cidade do Brasil a aceitar a libertação dos escravos e isso ainda tem um peso muito grande na cidade. Então quem a gente percebe que saiu da escola são os negros. Por isso a gente também faz um trabalho de revalorização da história dele, dizendo que a única maneira que você tem de resgatar tudo isso é estudando, crescendo na vida. Aí a gente consegue que eles voltem e que consigam ajuda para as dificuldades”, relata.
Para isso, ela conta com ajuda do Coletivo Negra Visão que realiza transmissões ao vivo no Instagram abordando temáticas que ajudam a resgatar a autoestima das pessoas.
Além da orientação para a continuidade dos estudos, ela ajuda a resgatar a autoestima dos estudantes. Esse trabalho é fruto das experiências adquiridas como gestora de RH, quando trabalhou em treinamento e desenvolvimento. Hoje, ela usa essas experiências nas rodas de conversa em que participa.
Para Silvana, idade é o fator menos importante nesse processo de retomar os estudos. “Acho que você precisa ter vontade de crescer. Quando a oportunidade aparecer, volte pra escola em qualquer fase da vida. Conheço gente que voltou pra escola com 60 anos pra fazer uma faculdade. A pessoa está velha? Não, ela foi atrás do sonho dela, da vontade de continuar crescendo. Situação financeira dificulta? Dificulta, mas não é motivo pra desistir, existem muitos cursos gratuitos e outros com pagamento facilitado através de bolsas de estudo”, argumenta.

